Hoje é dia de entrevistaaaaa! Aeeeee! O dia hoje é do Mogg Mester, autor que acabou de publicar seu primeiro livro de alta fantasia.
Mas primeiro vamos conhecer um pouco mais sobre o autor...
"Médico veterinário, Formado pela UFBa (Universidade Federal da Bahia) e psicólogo, Formado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, entusiasta da Psicologia Analítica Junguiana, Mogg Mester reside em Salvador, Bahia. Lá, quando não se dedica à joalheria, passa parte do seu tempo livre em busca de retratar através das palavras os horrores e as taras sombrias dos humanos através de estórias de fantasia. Atualmente participa do processo de construção do game nacional Guerreiros Folclóricos como romancista e roteirista Junto à Unique e é editor do site Clube Autores de Fantasia."
Mogg é mais um dos que fala muito (lembram da Jana? hahahahaha), mas garanto que vale a pena ler até o fim! <3
Olá Mogg! Bem vindo ao Infinitos Livros! É um
prazer recebê-lo aqui! Você sempre foi um bom leitor, ou o amor pelos
livros começou depois de mais velho?
Sempre fui incentivado por meus pais a ler.
Desde cedo eles liam livros infantis de escola e era muito divertido quando eu
ouvia meu pai fazendo piadas enquanto minha mãe lia o texto. Quando fiquei mais
velho passei a ler como um hábito, uma necessidade e não como uma obrigação.
Era uma estratégia que visava compensar algumas dificuldades que eu tinha em
certas coisas, como relacionamentos sociais. Tentava compensar com
conhecimento. Tornei-me um obcecado por saber, por devorar mundos e universos
criados por outros e por absorver parte de suas experiências assim. Nos últimos
anos ler passou a significar alimento para a minha mente. Cada livro é um
santuário em que oro as mais preciosas horas dos meus dias.
Fale um pouco sobre sua história com a escrita.
Quando você começou a escrever?
Desde muito cedo eu já tinha o desejo. Realizei
um esboço de uma estória aos 10 anos, se não me engano. Mas meu pai e um tio
meu a viram e ficaram fazendo piadas. Senti-me ridículo. Parei por ali, como
uma criança para de desenhar ao ver alguém rir de seu desenho. Aos meus 25 anos
conheci uma pessoa (hoje já falecida) aquém fiz uma pergunta. Ela me deu uma
resposta que foi o gatilho para eu começar a escrever. Perguntei-lhe: Gosto
muito de vilões, e sempre torço para eles. Será que tenho algum problema? (ou
algo do tipo.). Nunca vou esquecer a resposta dessa mulher que mudou minha vida
com suas palavras. Ela me perguntou se eu torcia para vilões na vida real ou só
nas fantasias de romances, filmes etc... Respondi que só nas fantasias. Sua
resposta foi surpreendente, coisa que jamais havia ouvido de outras pessoas a
quem eu havia feito a mesma pergunta: ela era da opinião que esse gosto tinha
algo a ver com um senso estético próprio meu, de minha visão de mundo. Disse
que eu tinha uma visão poética das coisas muito particular. “Você tem um
escritor reprimido em você. Acho que você deve escrever”.
O impacto disso veio como um soco na cara. A
aceitação da ideia foi imediata. Naquele mesmo dia A Auriflama do Caos começou
a nascer.
Claro, antes disso havia escrito algumas
poesias na escola. Tive um grande apoiador, um professor do meu terceiro ano.
No início da faculdade escrevia ainda pequenas estorinhas com fundo moral de
algo que eu havia percebido e de queria falar. Mas, tornar-me escritor, só me
tornei ao ouvir o que essa pessoa me disse.
Você publicou recentemente o primeiro volume da
saga A Auriflama do Caos, A Nova Ratoeira, com a Editora Pimenta
Malagueta. Como foi o processo de publicação com eles?
Sou autor independente. Se meus leitores não
forem capazes de aceitar isso, sugiro que nem leiam o livro. Mas se desejam conhecer
o novo, o que está surgindo não só meu, como o de outras pessoas extremamente
competentes com quem tenho trabalhado, é uma proposta que pode soar como
ousada.
Demorei mais de seis anos escrevendo os três
livros. Comecei em 2005 e terminei em 2011. Terminar chamo fechar o ciclo da
estória. Mas não acabei. Até hoje ainda dou polimento e busco melhorar ela
antes publicar os próximos volumes. Faço o máximo para agradar os meus
leitores. Busco fazer o meu melhor quando se trata de escrever.
A obra passou por uma leitura crítica (os três
volumes) antes de eu me decidir a publicá-la. A pessoa tem nome conhecido
nacionalmente, mas não vou citá-la aqui, pois pretendo fazer nova leitura
crítica, se for possível financeiramente. Hoje estou em busca de fazer uma nova
leitura, pois o texto mudou muito depois da primeira: ele amadureceu e foi
muito polido. Quero uma outra opinião profissional.
Depois disso começou a peleja em conseguir uma
editora que o publicasse. Quando comecei a entender a nossa realidade editorial,
fiquei muito desanimado. Na época, por volta de 2011, algumas editoras diziam
demorar até um ano para dar uma resposta. “Entendo a dificuldade delas. Mas
amanhã posso estar morto. Desejo ver meu livro recusado ou publicado o mais
rápido possível. Vou buscar outras alternativas.” , assim eu pensava.
Procurei uma editora que prometia horrores.
Investiguei e percebi que só desejava
meu dinheiro. Pulei essa fogueira. Depois conheci uma outra que me fez criar um
blog: Editoras perigosas. Apesar de haver investigado a procedência, de haver
visto livros dela nas livrarias, e confirmar o CNPJ dela etc... aceitei a
proposta de publicar compartilhado o valor de uma edição de 500 exemplares meio
a meio. Assinei contrato e tudo. Preparei o livro com essa mulher por alguns
meses. Até boneca do livro recebi. Mas um determinado dia descobri que havia
tomado um golpe. Não só eu, mas outros autores também. Fiz o que podia para
conseguir parar essa pessoa desonesta, mas nossa justiça é cega. Houve autores
que chegaram a perder mais de R$ 20.000, além de assessoria de imprensa, vinda
do exterior para cá, para uma bienal, e os exemplares não foram enviados e ele
não obteve resposta.
Essa experiência
terrível foi uma escola para mim. Pensei em desistir. Mas continuei. Sou
obsessivo, sabe?
Conheci a Pimenta Malagueta, nova na época.
Míriam de Sales, conhecida editora e autora baiana é a dona. É pessoa
sensacional, com um excelente conteúdo e uma conversa sedutora. Não seria
baiana se não tivesse uma conversa muito boa.
Bem, decidi prosseguir. Publiquei o livro. Mas
ocorreu um erro e perdi 500 cópias. Cheguei a vender algumas cópias, mas
busquei recolhê-las. Enviei um novo exemplar aos meus leitores e pedi que
destruíssem os anteriores. Eu mesmo tive que destruir o que ficou em minha mão.
Foi muito doloroso e pensei em desistir. Mas sou obsessivo, sabe? Pelo sucesso
ou pelo fracasso, vou até o fim. Pode parecer burrice, mas há algo que me
empurra nessa direção, pelo sim ou pelo não. É mais forte do que eu, ou do que
meus medos. Não gosto de largar nada pela metade, a menos que tenha certeza de
que ela não vale.
Fiz uma nova edição, quase vendendo minhas
tripas, se é que elas valem alguma coisa. Aprendi muito sobre edição de capas,
diagramação, revisão e, acima de tudo, jamais acreditar que está bom. Não sou
nada dessas coisas, mas isso me ajudou a ter uma visão mais madura e sólida do
processo. Ainda hoje aprendo sobre isso. Jamais vou parar de prender.
Hoje estou na batalha para me tornar mais
conhecido, divulgar a obra e ver se consigo publicar o volume 2. Espero que o
processo seja menos sangrento e menos doloroso. Mas não estou muito certo
disso.

A Auriflama é
uma trilogia. Você tem alguma previsão de quando saem as continuações?
Estou em busca de publicar uma tiragem do
volume dois em 2016. A arte da capa já está em construção com o profissional
que construiu a primeira. O livro passará por uma segunda revisão e irá para a
diagramação. Enquanto isso busco captar recursos para a impressão. Se tudo der
certo, pretendo ter o volume dois até maio de 2016.
Por falar em capa, eu amei essa de A Nova Ratoeira! Quais foram suas inspirações para a criação dos
personagens, desde os nomes até a personalidade, e da trama como um todo?
Gosto dessa pergunta. Sou franco com relação à
origem de minha obra. Ela se paroxima da origem das Crônicas de Dragonlance,
que teve a estória jogada e depois foi transformada em romance.
Meu processo criativo é confuso, longo e lento.
Sou jogador de RPG há mais de vinte anos. Alguns personagens foram criados por
amigos meus, a exemplo de Zarlack Dreyfus, Petras Markvell (que originalmente
era Peterson Maquiavel), Dan Forgen (que o jogador pegou de uma artista de
Magic: The gathering, Dan Frazier), Cronyver Mesh (do mesmo jogo, tirado do
nome Cristopher Rush), além de alguns outros, como Lythand, Tyrus, Draco
Dameron e Storm Mounters (que vem do artista Stive Winter), que foram
personagens de um outro amigo. Se eu pudesse manteria os nomes, mas por
respeito aos donos dos verdadeiros nomes, decidi trocá-los.
Como pode perceber não éramos bons criadores de
nomes fantásticos. Éramos adolescentes, poxa! Queríamos apenas jogar e nos
divertir. O que valia eram as histórias pessoais de cada personagem, não tanto
seus nomes. O próprio Elnhon Modoks (que foi personagem meu) veio de Anson
Madocks, desenhista do Magic: The gathering.
Barack foi personagem do mestre com que joguei.
Ele se inspirou na figura já conhecida. Mas este não me atrevi a mexer.
Outros personagens que criei, eu tive de
inventar nomes. Sou péssimo nisso. Até hoje, quando surge um nome estranho na
cabeça, anoto em um caderno de anotações de ideias. Guardo para quando for
criar um personagem.
Com relação a criar personagens, como eu disse,
alguns me foram cedidos. Sinto-me honrado por haverem-me cedido eles para
construir o romance. Fiz isso com a maior paixão que um autor pode ter por um
personagem criado por si mesmo. Peguei as histórias jogadas em mesa de cada um
deles e tornei-as o background para o romance. Na época era como uma homenagem
ao que essas pessoas (esses amigos) significavam para mim.
Bem, os que criei, por minha conta, não há um
motivo que os gere. Quando quero criar um personagem, começo com um impasse.
Algo que incomoda, que seja um problema ou uma questão importante. Isso se
torna o motivo do personagem. É o que o alimenta, o que distingue, o que o
decalca para que seja colorido. Quando eu fazia teatro amador, um dia, o
diretor nos passou um exercício para casa. Simples, mas muito interessante.
Hoje o aplico quase sempre. Ele recomendou que quando estivéssemos num ônibus,
ou fila, ou qualquer outro lugar, que escolhêssemos uma pessoa e a olhasse
discretamente. Que imaginássemos o porquê de carregarem aquelas expressões em
seus rostos, que história de vida deviam ter, como deviam pensar e o que as
motivava. Ora, isso é criar um
personagem. A pessoa provavelmente não é aquilo, mas você inventou algo novo
com o material que há no mundo. Nesse caso, o corpo dela.
Criar para mim é isso. Pensar nessas variáveis,
nos horrores de cada um, no que os movimenta e os condiciona. Há personagens
meus inspirados em pessoas próximas que têm seus demônios pessoais e que nem se
apercebem que eles me inspiram e me servem como ponto inicial de um personagem.
Um pequeno trejeito, uma mania, um cacoete. Às vezes uma fala indevida, uma expressão
filosófica. Ser escritor é falar do mundo além de você, a partir de você. Seria
injusto eu omitir que o próprio mundo para quem escrevo é o meu maior
inspirador.
No caso da trama, foi algo mais difícil e
árduo. Eu tinha partes dela na cabeça. Sabia como terminar um volume, mas não
como começar. As coisas eram desorganizadas, mas foi isso que me ajudou a
escrever. Não consigo trabalhar de forma linear. Sou holístico, não
cartesiano.
E seus autores favoritos, quais são? Eles
serviram de base para seu estilo de escrita ou você formou um estilo próprio
baseado em outros autores – não necessariamente os que te inspiraram no quesito
criatividade?
Tenho o que chamo de três grandes musos inspiradores.: Terry Pratchett,
Bernard Cornwell e Stephen King. Eles são em grande parte a base do que sou
como escritor. Quando os leio, eu me sinto uma barata, pois eles me denunciam o
que ainda preciso ter e que talvez jamais tenha. Sinto-me tão pequeno, tão
derrotado, que me esmero em aprender com suas obras. Leio e releio.
Não os imito. Sou contra isso. Mas acho que
eles me marcaram tanto que me tornei poroso à sua forma de escrever.
Ainda há outros autores por quem nutro
admiração no mesmo patamar que eles. Machado de Assis me influenciou muito.
Fernando Pessoa, Robert Louis Stevenson, Jack London, Neil Gaiman, Clive
Barker, J.R.R. Tolkien, Eiji Yoshikawa, Poe, Rubem Fonseca e, é claro, Kafka.
Na filosofia tem Musashi, Maquiavel; atualmente Emil Cioran, Edgar Morin e
Zigmunt Bauman. Na Psicologia há Jung e Freud.
Quando lemos e admiramos um autor, somos
influenciados por eles. Acho uma grande mentira e uma terrível pretensão algum
autor falar que não sofre influências daqueles quem leu. Precisamos admitir que
a literatura, a partir de um autor que inspira, pode evoluir ou degenerar. Mas a
base será sempre esses que foram os pioneiros. Eles são os nossos mestres
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Imagem retirada daqui. |
Além da trilogia A Auriflama, você tem algum outro projeto engatilhado ou está
focado nela até terminar?
Estou escrevendo uma heptalogia que é a
continuação de um dos personagens de A Auriflama do Caos. Tem um tom
diferenciado da trilogia. É mais cômico, mas não menos adulto e dotado de
horrores pessoais.
Tenho uma antologia de contos também em
construção. Alguns deles estão prontos. Publiquei um deles no Clube de Autores
de Fantasia após publicá-lo na seleta Panorama da literatura Brasileira,
lançada pela Pimenta Malagueta esse ano. O nome é Cheiro de Capim cortado.
Além disso, estou participando da construção de
um game para PC, nacional, junto com a Unique, aqui na Bahia. É um jogo que
terá nosso folclore como tema. Fui chamado pela Unique para ser o romancista
e, junto com eles, o roteirista. Estou estudando muito sobre folclore nacional
e elementos da cultura indígena. O projeto está belo, e em breve algo do
romance chegará ao público para que este continue a interagir com a construção
do jogo. O nome do projeto é Guerreiros Folclóricos.
Nossa, deve ficar legal demais! Adoro nosso folclore!
Como
você acha que está evoluindo a literatura nacional e a recepção dos livros aqui
dentro, tanto por parte dos leitores, quanto por parte das editoras?
As coisas estão melhorando, se eu pegar como
eram em 2011 para como são hoje. A literatura ainda é artigo de luxo, porque
produzir livro também não é barato. Para mim, a maior dificuldade disso tudo é
divulgar a obra e distribuí-la. Pelo menos aqui na Bahia.
As livrarias cobram um valor absurdo pela venda
de um exemplar. 40 ou 50% do valor de capa é desanimador, principalmente para o
autor independente. Quando se pensa nos custos de produção de capa,
diagramação, revisão, leitura crítica, impressão, e se compara com esse
percentual, fico apavorado. Como o livro
pode chegar ao leitor assim? Por isso desisti de distribuir meus livros às
grandes livrarias, que na maioria das vezes nem respondem ao autor, a menos que
ele vá pessoalmente.
Já com o público sou mais otimista. Acho que o
mercado nacional está em expansão. Temos pessoas vorazes por coisas produzidas
aqui. Inclusive na literatura fantástica. Falta o autor iniciante encontrar
apoiadores. O Clube de Autores de Fantasia, cujo criador é L. A. Nunes, um dos
meus primeiros leitores (e que recebeu um exemplar problemático), e toda a sua
equipe busca divulgar e incentivar a literatura e suas novas promessas.
Precisamos de mais iniciativas e parceiros desses para que os leitores possam
conhecer o que há por ai e pouco ou nada se fala ainda.
Por último, quer deixar um recado para os
leitores?
Escrever é uma atividade solitária e doída.
Quando Hemingway falou sobre sangrar no papel, restringiu outros tipos de
explicação sobre isso. Não esperem que seus amigos valorizem sua obra. Nem seus
pais, namorados, professores, irmãos, colegas... Ela é sua, escolhe você para
ser o seu receptáculo, para germiná-la e lançá-la ao mundo como uma semente, ou
um produto. Ame-a. E odeie também. Acaricie ela e depois mutile. Enxerte. Tire.
Mastigue. Pise. Reescreva. Chore. Reescreva. Apague. Termine.
Quando alguém mostra se interessar pelo que
você produz, pelo menos em minha experiência, é por pragmatismo, educação.
Poucos de fato vão se interessar por ela genuinamente até que esteja pronta. E
mesmo que pronta, muitos nem sequer falarão dela ou a lerão. Podem até elogiar,
mas insisto, será por educação.
Você saberá que alguém o considera quando lhe
disser a verdade, por mais dura que seja. Sua obra pode estar ruim. Incoerente,
errada, mal revisada, mal escrita. Pode ser chata ou desinteressante. Ou pode
ser o oposto disso. A indiferença sempre vai existir.
Cabe a você fazer com que ela ganhe algum valor
para os outros. Mas jamais se esqueça que ela o escolheu e do valor que tem
para VOCÊ.
Mogg, adorei suas respostas! Muito obrigada pela disponibilidade em
conversar conosco e contar um pouco mais sobre a sua obra! Te desejamos
todo o sucesso! ;)
Samy =)
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